PostHeaderIcon Fausto de Aguiar Cardoso

Bacharel Fausto de Aguiar Cardoso, filho do Tenente Coronel Felix Zephyrino Cardoso e D. Maria do Patrocinio de Aguiar Cardoso, nasceu no engenho S. Felix, municipio de Divina Pastora, a 22 de Dezembro de 1864 e faleceu em Aracaju, a 28 de Agosto de 1906. Depois de iniciado em portuguez na Villa Natal, continuou seus estudos em Maroim, Capella, Aracaju, e no Collegio "Sete de Setembro", acreditado estabelecimento de ensino na Capital da Bahia, onde concluiu o curso secundario. Frequentou depois a Faculdade de Direito do Recife desde 1880 a 28 de Março de 1884, em que recebeu o grau de Bacharel em sciencias juridicas e sociaes. Durante o curso academico não se applicou bastantemente ao estudo das disciplinas ensinadas na Faculdade, indifferente á brilhante figura que poderia ter feito entre os collegas, se tivesse querido utilizar-se dos poderosos recursos de sua possante intelligencia. Seus mestres sempre o distinguiram com particular estima e, discipulo de Tobias, soube inspirar-lhe uma grande affeição, de que aliás não era prodigo o sabio brasileiro. Um mez depois de graduado começou sua vida civil com a nomeação para a Promotoria de Capella a 22 de Abril, removido em Junho para a de Gararú, e dessa para a de Riachuelo por acto de 21 de Agosto de 1885.
Em Junho de 1887 passou para a Promotoria de Laranjeiras, em que serviu até 1889 e após curta interrupção voltou a occupar o mesmo cargo com a ascensão do Partido Liberal ao poder, vindo encontra-lo a proclamação da Republica, nesse posto, do qual foi destituido em Fevereiro de 1890. Attingido por um acto hostil do governo, sob o regime politico de que foi um dos maiores propugnadores, sentiu a respidez do golpe, mas não se quebrantou sua fé republicana, nem a altivez do seu caracter independente. Pelo caontrario, a sua demissão fez-lhe affagar a idéa de, fitando horisontes mais largos, transferir em Maio a residencia para o Rio de Janeiro, onde iria dar o maximo desenvolvimento ás suas energias intellectuaes.
Effectivamente foi alli, na metropole da civilisação brasileira, que elle revelou toda a pujança do seu talento polymorpho, como sociologo, politico, jornalista e poeta. Logo de começo, dedicou-se á advocacia e ao magisterio. Nomeado professor de historia universal por Benjamim Constant, delegado auxiliar e secretario geral da Prefeitura no Governo de Marechal Floriano, foi depois lente de historia na Escola Normal, lente da mesma materia e director do pedagogium; lente de historia das bellas-artes na Escola das Bellas-Artes e de philosophia do direito na Faculdade Livre de Direito. Como lhe não fartassem as responsabilidades das obrigações já contrahidas, percebeu convir ás suas futuras aspirações assumir outros encargos, que satisfizessem a ancia irreprimivel de agir num campo de acção de mais vastas dimensões. De accordo com este ponto de vista, contidas por vezes as impetuosidades do seu temparamento resoluto e ardente, enquanto no recolhimento do gabinete enriquecia o espirito no estudo das sciencias, a philosofia e o direito de preferencia, logo que se offereceu o desejado ensejo, entregou-se á actividade febril das lides da imprensa e da politica, amparado na consciencia do seu valor mental e na efficiencia dos fortes elementos de combatividade de que antecipadamente se premunira. O jornalista vigoroso, politico irredutivel e leal tornou-se em breve o tribuno querido das multidões fanatizadas pelo encanto de sua palavra facil e arrebatadora. O numero dos adeptos das suas idéas multiplicava-se na proporção do esforço empregado em favor da causa do povo; e si no primeiro pleito que assistiu como candidato, não se lhe abriram as portas do Congresso Nacional, em compensação conseguiu demonstrar vantajosamente a grande força de que dispunha no eleitorado da Capital Federal. A sua entrada para a Camara dos Deputados como um facto que teria de realizar-se inevitavelmente, dependia tão somente de uma simples questão de tempo. Chegada a epocha de pronunciarem-se as urnas eleitoraes, Sergipe conferiu-lhe o honroso mandato de representa-lo na 4ª legislatura federal 1900 a 1902, tendo deixado em virtude de sua eleição o cargo de redactor dos debates da Camara de que ia fazer parte, reaffirmando-o no triennio de 1906 a 1908. Nesse outro theatro das exhibições da palavra o novel deputado ergueu bem alto a tribuna parlamentar, confirmando a fama de orador eloquente, de estylo elegante e energico. As suas objurgatorias ciceronianas muitas vezes provocaram violentos protestos, a que sempre replicava com esmagadora superioridade. E si, discutindo as mais trancedentes questões politico-sociais ousava incidentemente dissentir da erronea orientação dos governantes, condemnando-lhes os erros e demasias, repetiam-se com o mesmo ardor as hypocritas, indignações dos politicos praticos, jungidos ao carro das conveniencias partidarias. As sua idéas estiolaram-se no terreno ingrato do conluio para as habituaes transacções; é deste modo, isolado no seu radical opposicionismo ás velhas praticas, não pôde prestar ao paiz e a sua terra os serviços esperados do seu patriotismo e aprimorada cultura scientifica. Apenas deixou na sua passagem por aquelle recinto um rastro de luz, que jamais se apagará, enquanto preponderar a primazia do genio e perdurar a memoria do entrepido representante do povo, a respeito de quem o Presidente da Camara dos Deputados ao annunciar sua morte tragica disse - ter sido uma das maiores mentalidades do Brasil moderno. No interregno da sua carreira parlamentar, entre os annos de 1903 a 1906, quando não lhe absorviam totalmente as preoccupações politicas devoutou-se ao culto das musas, produzindo admiraveis sonetos de  que são bellissimos modelos os dois seguintes, o segundo do quaes representa o ultimo fructo de seu éstro poetico:

"O AMOR"
Eu sou o Amor, o Deus que a terra inteira gaba !
Vivo enlaçando os sóes pelo Universo afóra,
Dos odios expurgando a venenosa baba,
Que os mundos desaggrega, espalha e desarvóra.
 
O tempo tudo avilta; a morte tudo acaba;
E o louro sol jámais a murcha flor colora;
Novos mundos, porém do mundo que desaba
Faço surgir e salto em rutilante aurora !
 
Caso estrellas no céo e corações na terra;
Da treva arranco luz; do nada arranco vida,
E crivo de vulcões o gelo que a alma encerra !
 
Mudam-te o peito em mar meus lubricos desejos,
E tua mente ondeia e fulge colorida,
Como raio de luz entre vergeis de beijos !
 
"TAÇAS"
Deslumbrado cheguei chorando á terra, um dia;
E, do lauto festim da vida, achei-me á meza;
Sempre libei cantando a taça da Alegria
Embebedou-me sempre o vinho da Tristeza.
 
Esplendidas visões trouxeram-me á porfia
As amphoras do Amor; e de volupia acceza,
Minha bocca de bocca em bocca um mosto hauria,
Que te tedio me encheu por toda a Natureza.
 
Dá-me a velhice a taça; eu das paixões prescindo;
E, ebrio, ascendo a espiral de um sonho delicioso,
No vimho da Saudade achando um gosto infindo ...
 
Parece-me o passado um rio luminoso,
Onde vogo a rever, pelas margens florindo,
A dor, que ao longe tem as seduções do Goso !

 

" Das calmas regiões da phantasia, onde se deliciava sua alma de poeta,volveu de novo,reeleito deputado,à arena revolta dos gladiadores parlamentares, um tanto modificado nos arroubos tribunicios, mas com o mesmo zelo pelos seus idéaes, qaundo prejudicados pelas mystificações da política partidária, que em breve o teria de expôr aos perigos de arriscadissimo emprehendimento. Soára infelizmente a hora sinistra,ao desencadearem-se em sergipe as vexações e violencias, contra as quaes a propria consciencia impunha-lhe o dever de protestar com a maior vehemencia. Ao primeiro brado augustioso dos opprimidos seguiu para Aracajú em fins de julho de 1906 e ahi aportando viu-se na imperiosa necessidade de, para conter os excessos da exaltação dos animos, pôr-se á frente do movimento revolucionário, que a 10 de Agosto depôz o Presidente do Estado. Certo pelas demonstrações antecedentes de contar co a lealdade dos chefes da alta administração para o fim de assegurarem o bom exito desse acto emanado da soberania popular, veio a solução final mallograda aventura comprovar quanto sua espectativa fôra illudida, confiando demasiado nas intimas ligações, que o prendiam á situação politica União.Do muito que jugava esperar do poder federal para affirmação decisiva do golpe de mão a que ligara a sua personalidade, tudo lhe foi negado,resultando dessa inesperada attitude dos poderes publicos a queda do governo transitorio a que deu seu apoio, e o que é mais contristador, a perda da propria vida.Decorridos dezoito dias no gozo de sua ephemera victoria,a  força federal affectuava,por ordem superior, a reposição do governo decahido,precedendo-a das mais apavorantes scenas de inaudita pervecidade. O chefe querido que na praça publica exigira  dos companheiros de luta o solene juramento de tolerancia e o maior respeito aos direitos dos adversarios recebeu em premio de tanta magnanimidade brutal aggressão á bala dentro de palacio e impellido em seguida a coice d’ arma pelas  escadas,ser attingido na sahida por um disparo de espingarda, que o victimou horas depois. Voltando o pensamento para a patria estremecida,sentindo os estertores da morte, que lhe invadia o organismo, deixou escapar por entre os labios moribundos, como o ultimo adeus á terra do berço estas memoraveis palavras:- bebo á alma de sergipe; morro,mas a victoria é nossa,sergipanos. A praça em que se desenrolou esse drama sangrento, condecora-se hoje com o seu nome e nella se ostenta a estatua do grande martyr, erigida pelo povo no sexto anniversario do seu heroico sacrificio. Na historia das revoluções politicas no Brasil factos se hão reproduzidos com os mesmos traços de caprichosa uniformidade e de aspecto tão similhantes, separando-os entretanto uma grande distancia de tempo, que convidam a meditar sobre elles os que se comprazem no estudo dos varios phenomenos sociaes. As vistas penetrantes dos historiadores psychologos facilmente descobriram na figura suggestiva do deputado sergipano a personificação do patriota pernambucano que chefiou a revolução praieira em 1848, taes os pontos de approximação entre elles, as coincidencias notaveis verificadas na vida de ambos e os eguaes destinos que tiveram na ultima phase de suas existencias. Fausto Cardoso e Nunes Machado, representantes do povo, ausentes no Rio de Janeiro, quando se assentavam nos planos de revolução, dominados do mesmo sentimento de solidariedade pela causa commum, partiram, cada qual para sua terra, afim de partilhar da sorte reservada aos correligionarios envolvidos na onda revolucionaria. Urgidos pelas criticas injuncções do momento, assumiram a posição de chefes, dirigiram o movimento da reacção pelas armas, mas foram vencidos ambos e ambos roubados ao serviço da patria em circumstancias perfeitamente identicas, pela bala assassina de uma praça do exercito. A 2 de Fevereiro de 1849 Nunes Machado ao sahir da casa em que se achava para animar as tropas rebeldes, recebeu o tiro traiçoeiro desfechado do quartel da Soledade no Recife; Fausto Cardoso, a 28 de Agosto de 1906 em Aracaju, em  frente ao palacio do governo, verberava as selvagerias da soldadesca desenfreada, quando é tambem alvejado pela carabina de outra praça dos mesmos instinctos sanguinarios, sob o commando do official superior, Firmino Lopes Rego, que, sem reflectir sobre a gravidade do crime que não soube ou não quiz evitar comprometteu os seus creditos millitares, deslustrando assim os bordados de general do exercito brasileiro. Desapparecidos do scenario da vida, por se terem devotado ao culto dos grandes ideiaes, seus nomes ficaram gravados no coração do povo e jazem inscriptos no extenso martyrologio dos defensores da liberdade. Sobre o scientista  sergipano escreveram - Sacramento Blake, Graça Aranha, João P. Barreto, Gumercindo Bessa, Prado Sampaio, Olegario Dantas, Dunshee de Abranches, Moreno Brandão, Helvecio de Andrade, sob o pseudonymo de João José, Pericles M. Barreto e outros.Colaborou no " O Republicano", de Laranjeiras, Sergipe, na "A Reforma" de Aracajú, e na "Gazeta de Sergipe"; no "Correio do Povo", "União Federal", "O Debate" de que foi secretario "A Imprensa" redigida pelo conselheiro Rui Barbosa, "O Dia", "Diario de Noticia" e "Revista Brasileira", da Capital Federal.

 

FONTE:
GUARANA, Armindo.Diccionario Bio-Bibliographico Sergipano: Rio de Janeiro, 1925.
Esta obra poderá ser encontrada na Biblioteca Ephifânio Dorea - Aracaju-Se.


 

 
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